Durante muitos anos, o efeito das micotoxinas na saúde humana e animal vem sendo estudado e descrito toxina por toxina. A falta de conhecimento sobre a contaminação dos alimentos por várias micotoxinas ao mesmo tempo e sobre a possível combinação ou interação entre elas tem levado a subestimar a toxicidade desses compostos (Viegas et al., 2011).
Na produção animal, as manifestações clínicas por micotoxicoses raramente podem ser explicadas por uma exposição a níveis baixos de um único tipo de micotoxina. No entanto, a combinação de micotoxinas pode ter um efeito até duas vezes superior ao observado quando estas se apresentam individualmente.
A combinação de várias micotoxinas acarreta a formação de diferentes tipos de interações que podem ser aditivas, sinérgicas ou antagônicas (Greco et al., 2014). O tipo de interação varia de acordo com a espécie animal, o sexo, a idade, a dose de micotoxina, a duração da exposição, o estado nutricional dos animais e a via de exposição à micotoxina (Gruber-Dorninger et al., 2019).
A aditividade refere-se ao tipo de interação em que o efeito combinado de várias micotoxinas é igual à soma dos seus efeitos individuais. Por outro lado, quando a combinação de micotoxinas apresenta apenas o efeito da mais tóxica entre elas, sem que a micotoxina adicional contribua para o efeito total, utiliza-se o termo “menos que aditivo ou subaditivo” (Smith et al., 2016).
Até o momento, foram documentadas interações aditivas entre diversas combinações de micotoxinas, incluindo: aflatoxina B1 (AFB1) com ocratoxina A (OTA), AFB1 com toxina T-2 (T-2), AFB1 com fumonisina B1 (FB1), OTA com T-2, deoxinivalenol (DON) com FB1, moniliformina (MON) com FB1, MON com DON, FB1 com diacetoxiscirpenol e FB1 com T-2 (Gimeno et al., 2011).
O antagonismo refere-se a um tipo de interação em que o efeito combinado de várias micotoxinas é menor do que a soma de seus efeitos individuais (Smith et al., 2016). Dito de outra forma, o conceito de efeito antagônico aplica-se quando a toxicidade de um composto é mitigada pela presença de outro composto (Ruiz et al., 2011). Por exemplo, relatou-se que a combinação de DON e zearalenona (ZEA) pode ter um efeito antagônico sobre a função imune em suínos. Do mesmo modo, também foi relatado o seu efeito antagônico sobre a saúde e o metabolismo hepático em camundongos (Gruber-Dorninger et al., 2019).
O sinergismo entre micotoxinas é definido como o efeito tóxico exercido pela combinação de várias micotoxinas em determinadas concentrações, o qual está ausente quando estas se apresentam de maneira individual (Gimeno et al., 2011).
Em outras palavras, o sinergismo é observado quando o efeito da combinação de várias micotoxinas é superior á soma de seus efeitos individuais.
Quando uma ou ambas as micotoxinas não induzem efeito, enquanto a combinação entre elas tem um efeito significativo, fala-se em potenciação, embora esse termo seja pouco utilizado (Smith et al., 2016). O sinergismo aumenta os efeitos tóxicos das micotoxinas. Entre as interações sinérgicas encontram-se aquelas apresentadas entre aflatoxinas e OTA, ou entre aflatoxinas e T-2, entre outras (Greco et al., 2014).
Entre as micotoxinas derivadas de Fusarium, foi relatado que a maioria das interações é aditiva ou sinérgica, variando seus efeitos sobre a mortalidade, o crescimento animal e a ingestão de alimentos. Além disso, vários relatos indicam interações sinérgicas entre DON e o ácido fusárico, DON e FB1 e, inclusive, entre o diacetoxiscirpenol e as aflatoxinas (Pedrosa, 2010).
Alguns dos sinergismos encontrados na literatura e seus efeitos sobre a produtividade dos animais são descritos na tabela a seguir (Gimeno et al., 2011):
| Combinação de micotoxinas | Efeito descrito |
|---|---|
| DON + AFB1 | Foi descrito que a exposição simultânea a ambas as toxinas resulta em maior gravidade dos sinais clínicos em frangos, tais como diminuição do ganho de peso, redução da taxa de crescimento e anemia. Em suínos, com a combinação dessas duas toxinas, os animais apresentam frequentemente vômitos, rejeição do alimento e redução do ganho de peso. |
| T-2 + AFB1 | A sinergia originada entre AF e T-2 é de grande importância em aves de produção, pois ambas apresentam maior prevalência e gravidade dos sinais clínicos (Greco et al., 2014). Estudos realizados em frangos demonstraram que os efeitos da T-2 e da AFB1 se agravam quando ambas estão presentes. Os animais costumam apresentar lesões orais, redução no ganho de peso vivo, diminuição da atividade de enzimas séricas e redução dos níveis de proteínas, entre outros. |
| T-2 + OTA | A combinação entre estas duas micotoxinas afeta significativamente o desempenho animal. Em frangos, a ação conjunta de ambas as toxinas induz menor ganho de peso e redução dos níveis de proteína, assim como altera a eficiência alimentar. Em suínos, a contaminação conjunta destas duas micotoxinas reduz significativamente o ganho de peso vivo, além de diminuir o peso relativo do fígado. |
| T-2 + DON | Em frangos, a contaminação conjunta destas toxinas altera significativamente o ganho de peso. Além disso, a incidência dos problemas orais ligados à T-2 aumenta com a presença do DON. |
| Diacetoxiscirpenol + DON | A combinação destas micotoxinas resulta em aumento do peso relativo do fígado, da moela e dos rins em frangos. Além disso, observam-se problemas graves de nefropatia e lesões orais. |
| Diacetoxiscirpenol + AFB1 | Em suínos, foi relatado que a combinação de ambas as micotoxinas ocasiona o aumento do peso relativo do fígado e do baço. Além disso, diminui a captação de ferro, reduz o nível de nitrogênio sérico e agrava outras alterações patológicas. |
| FB1 + T-2 | Em frangos, descreveu-se que a contaminação conjunta dessas duas toxinas resulta em taxas de mortalidade de até 15%. Por sua vez, o peso relativo do fígado e dos rins e os níveis de colesterol aumentam. |
| DON + ZEA | Em suínos, a associação destas duas toxinas resulta em rejeição do alimento, vômito e fezes sanguinolentas. Em galinhas poedeiras, o efeito combinado de ambas as toxinas provoca menor produção de ovos e lesões na cavidade oral e no papo. |
| FB1 + AFB1 | Em perus, a combinação destas duas toxinas diminui significativamente os níveis de proteína total, albumina e colesterol no soro. Além disso, relata-se que o índice de conversão alimentar piora significativamente. |
A presença de múltiplas micotoxinas na dieta representa uma ameaça real tanto para a saúde animal quanto para a humana. Cada combinação de micotoxinas pode produzir uma toxicidade distinta, mesmo quando estas se encontram em concentrações aparentemente baixas (Smith et al., 2016).
Nesse cenário, uma das principais limitações é que grande parte dos estudos sobre a combinação de micotoxinas na nutrição animal é realizada in vitro, principalmente por meio de modelos celulares. Nesse contexto, os efeitos tóxicos em nível celular variam de acordo com vários fatores:
Dessa forma, evidencia-se a falta de pesquisas in vivo que permitam compreender de maneira mais precisa os efeitos reais em organismos completos. A diversidade de interações entre micotoxinas é ampla e, na maioria dos casos, ocorrem efeitos aditivos ou sinérgicos. No entanto, devido à complexidade dessas combinações, prever sua toxicidade conjunta é extremamente difícil.
Conclusão
Os resultados destacam a importância de novas pesquisas sobre as interações entre micotoxinas e a exposição crônica a concentrações subtóxicas em alimentos multicontaminados, já que essa abordagem reflete com maior precisão as condições reais que afetam a produção animal.
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